quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Mulher Completa



Debaixo da água morna do chuveiro ela era extensa. Se sabia longa, uma jornada de pele macia e perfumada. Léguas e léguas a serem percorridas. Se sentia a matriz da terra, a fornecedora, a esfomeada embalde seus seios parecerem capazes de alimentar todos os famintos. As formas delicadamente redondas, tão eróticas e femininas, cheias de curvas secretas, seu próprio labirinto. Se sentia única mas seu corpo poderiam ser vários, cada nuance de sete ângulos, e ela era sete mulheres diferentes. Suas formas peculiares a faziam sempre nova e misteriosa. Fartura, amor e tesouros... tudo se cabia...aconchagante e macia. Útero- ela era toda carne e ainda assim estreita. Ela era mais quente que a água e mais molhada do que ela. Genitora e amante. Alfa e Ômega.Ora, ela era uma mulher completa.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Relato: A menina e o rubi


A menina tinha um rubi. Ele era roubado e secreto(para alguns). Tinha gosto de coisa muito proibida, de tentação das tentações... contra a luz ele deixava a atmosfera tão embrigada e lasciva e tudo girava, girava, girava como a dançarina no mastro. Ele era lapidado e bruto ao mesmo tempo. E nada combinava tanto com veludo negro quanto aquela pequena pepita(nem tão pequena assim)... Ela era dela sem ser. E de certa maneira à tinha escolhido por ter sido deixada ao alcance de suas mãozinhas curiosas e sedentas... o rubi era geladinho e parecia gostar muito daquela pele alva de bochechas rosadas, ele dizia que a menina era deliciosamente pálida com um tom de saúde. O rubi era enfeitiçado, a menina nunca queria saber de outra pedra, nunca achava pedra melhor, ou parecida, ainda que lhe fossem oferecidos diamantes delicadinhos e memoráveis, quartzos quentes e sinuosamente desenhados. Na verdade, as outras pedras não eram piores, estavam sendo injustiçadas... porque somente o rubi era roubado. Somente o rubi era erótico e voluptuoso, tinha um ar e um cheiro de pedra antiga com uns toques inusitados em seu corte. O rubi era tão sofisticado que a menina sentia prazer só em olhar.

Relato: Assassina

Tem dia que acordo com vontade de matar e nem percebo. As vezes quero matar à mim... tento fazer isso gradualmente com pequenas punições: problemas imaginários, dietas indigestas, escolhas nocivas, atalhos para lugares sem volta ou solidão. Não consigo. Frustrada, por fim, tento matar nos outros o que amam em mim.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Nightfall- By Neil Gaiman

Nightfall (Cair da Noite)
Neil Gaiman

Half-remembered lines of Shakespeare -- (Meio lembrados versos de Shakespeare)
change of times and states and crystal tresses -- (Mudança de tempo e estado e emaranhados de cristal)
and Pepys, going out with his wife to see the comet, (E Pepys*, saindo com a esposa para ver o cometa)
and afterward the plague, (e depois a praga)
and then the fire. (e então o fogo)

I always wondered how they noticed comets,(Eu sempre me perguntei como eles diferenciavam os cometas)
after all, the sky is filled with stars and planets,(afinal, o céu é repleto de estrelas)
and I've never quite been able to tell the two apart, (e eu nunca fui capaz de distinguir duas delas)
see which was which.(ver qual é qual)
And why did comets scare them so? (e por que os cometas os assustam tanto?)

Stars fall, Which is much worse, (Estrelas caem, o que é muito pior)
But that does not make us fear that wars will come, (Mas isso não nos faz temer que venham as guerras)
and fires and plagues will come,(que venham os fogos e as pragas)
established things be overturned and new things come (coisas estáveis são reviradas e coisas novas vem)
-- and new things are never comfortable things.(--e coisas novas nunca são coisas confortáveis)
So I walk down to the woods, and stare up at the night.(então eu caminho pelo bosque, e comtemplo a noite)
So many stars. But only one comet, obvious, and perfect and precise, (Tantas estrelas. Mas apaenas um cometa, óbvio, e perfeito e preciso)
its tail a ghost and white against the night. (Sua cauda um fantasma e branco contra a noite)
On seeing it, I understand at last.(Ao vê-lo eu finalmente compreendo)
And shiver, (E arrepio)
for the change that's always coming.(Pela mudança que está sempre vindo)

*Samuel Pepys, Londres, Inglaterra(1633-1703)foi administrador da marinha Inglesa e membro do Parlamento, famoso por seu diário e seus testemunhos oculares sobre a Peste Negra, o Grande Incêndio de Londres e a Guerra entre Dinamarca e Inglaterra(1667)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Neil_Gaiman ----> Neil Gaiman é o meu quadrinista favorito, além disso gosto muito de sua prosa e poesia também(alguns livros mais do que outros, como com qualquer autor), como não gostar de alguém que gosta tanto assim de gatos, tem um prefácio escrito pelo próprio Clive Baker(outro adorado) para um de seus quadrinhos e escreve um prefácio lindo sobre confluência especialmente para o Brasil- e com propriedade, verdadeira... A "Abrace-Me"(Hellblazer Número um), escrita por ele para o Constantine é muito minha..."quando nos abraçamos na escuridão, não fez com que a escuridão fosse embora...quando nos abraçamos, nos sentimos não seguros, mas melhores. "Está tudo certo" sussurramos."Estou aqui: eu te amo". E mentimos, "nunca vou te deixar"

Velha História

Velha História - Mário Quintana Que singelinha e fofa! Para Felipe Godoy e Lidiane.

"Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!..." Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado..."(Quintana, 1976, p. 105)

O Rouxinol e a Rosa

Um dos contos de meu escritor(um dos) favorito. Esse conto, nada tênue, é grave e legítimo...um clamor para não se perder a sensibilidade, ou não se desperdiçar sendo excessivamente sensível... ainda procuro um ponto de equilíbrio... tendo ser rouxinol demais nessa minha vida...

O Rouxinol e a Rosa

Oscar Wilde

_ Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas – exclamou o Estudante – mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
_ Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! – disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. – Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! – disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
_ Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.
_ Eis um verdadeiro apaixonado... – pensou o Rouxinol. – Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.
_ Os músicos da galeria – prosseguiu o Estudante – tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... – e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.
_ Por que está chorando? – perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
_ É mesmo! Por que será? – Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
_ Por quê? – sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
_ Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.
_ Por causa de uma rosa vermelha? – exclamaram – Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
_ Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.
Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu – e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.
O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.
_ Dá-me uma rosa vermelha – pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.
A roseira sacudiu-se levemente.
_ Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.
_ Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?
_ Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.
_ Dize. Não tenho medo.
_ Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
_ A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha – exclamou o Rouxinol – e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?
Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.
O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.
_ Rejubila-te – gritou-lhe o Rouxinol – Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.
O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.
Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
_ Canta-me um derradeiro canto – segredou-lhe – sentir-me-ei tão só depois da tua partida.
Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
_ Tem classe, não se pode negar – disse consigo – atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!
Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.
Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...
Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.
Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. – Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.
E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.
Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco – pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.
_ Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira – raiar o dia antes que eu finalize a rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.
A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
_ Olha! Olha! Exclamou a Roseira. – A rosa está pronta, agora.
Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.
_ Que sorte! – disse – Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.
Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
_ Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. – Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.
A moça franziu a testa.
_ Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
_ És muito ingrata! – exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.
_ Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... – e a moça levantou-se e entrou em casa.
_ Que coisa imbecil, o Amor! – Resmungou o estudante, afastando-se. – Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.
Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...
Versão em português: Lázaro Curvêlo Chaves - julho de 2005