quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A identidade é responsabilidade do indivíduo, e agora?



“O estado que vestiu homens de uniforme, de modo que estes pudessem ser reconhecidos e instruídos para pisar, e antecipadamente absolvidos da culpa de pisar, foi o estado que se encarou como a fonte, o defensor e a única garantia da vida ordeira: a ordem que protege o  dique do caos.”. (BAUMAN, p.28)

Reler Bauman foi um grande prazer. Livro aqui: Bauman, Z. O mal estar da pós-modernidade
Me fez lembrar um episódio que aconteceu comigo na graduação: em uma das minhas primeiras aulas, um já doutor (que hoje, depois de reencontrá-lo em um seminário, consegui achar simpático) perguntou à turma: "em que sociedade estamos?" e um aluno, todos nós calouros, respondeu "capitalista!". O professor com tom arrogante e irônico disse "Brasileiraaaa! Humpf, capitalista, como se existisse outra sociedade além dessa!" e eu, uma jovem ingênua de 19 anos, levantei a voz e disse "existe sim professor, a indígena!". Ele pôs a mão sobre o queixou, pensou, pensou, e disse "éee você tem razão! Como não pensei nisso.” Todos rimos. Fiquei com uma nota ruim. Rs. 

Lembrei-me desse episódio ao pensar o movimento sugerido por Bauman de "assimilação ou separação". É uma perspectiva desoladora: essa "ampliação" da sociedade ao mundo inteiro, fez com que eu testemunhasse dos 19 aos 32 "os estranhos" da sociedade capitalista do professor P. (porque para mim ela é o Estado em combo com o capitalismo) no caso, os índios, serem engolidos ou se separarem. Para conseguir se separar, as tribos que permaneceram, combinaram isolamento geográfico e hostilidade. E qual é a diferença do índio em total isolamento que mata "o estranho" antes mesmo que o contato seja estabelecido e fascismo, nazismo e outros ismos? Eles não tem interesses econômicos perversos "com os brancos", querem somente as suas ilhas onde possam construir o seu espaço de identificação e lidar com um Outro “menos amplo" da forma que desejarem (provavelmente o matando também). Assim, o problema da fronteira, não é o levante da fronteira propriamente dita- afinal, é um movimento natural e cíclico, até, que os que resistem à morte das suas práticas e identificações queiram partir para a brutalidade: a fronteira concreta, os embargos econômicos, os assassinatos- o problema do mundo "sem fronteiras", "super-globalizado" é a tentativa de hegemonia de todos os tipos, que agora é também uma disputa virtual, se casou com as novas tecnologias. 

Fico tão desapontada quando alguém fala do Capitalismo como a mazela, o Capitalismo nunca esteve sozinho, sempre se associou ao Estado, religioso ou político. A professora Graziela fala de utopia, pois a minha utopia é ver o Capitalismo, sem Estado, o mercado livre, o compartilhamento intelectual, tecnológico e irrestrito, o capitalismo não é ruim, o consumismo é. O embate da segurança versus liberdade sempre demonizou a morte do Estado, mas entregar a liberdade na mão do indivíduo o asseguraria poder de escolha, poder de dizer não. A nossa política e polícia corrupta me diz que a "segurança" e "os direitos trabalhistas" são porcamente assegurados. Pessoas boas desobedecem a leis ruins, a pirataria (é crime, segundo o NOSSO Estado) de filmes e livros, por exemplo, me diz que existem pessoas capazes de burlar o Estado e fazer acontecer, por ímpeto não de caos, mas por solidariedade. A associação da anarquia à morte da solidariedade e da humanidade é a balela de um estado temeroso. Essa discussão aparece em Bauman, mas não é explicado o medo que transformou a anarquia em "caos".

Se formos pensar a democracia, e as correntes de identificação ou o "ego coletivo", ela é democrática pra quem? Como qualquer outro tipo de governo, quanto mediadora, a democracia vai "assegurar" que a parcela X de indivíduos, que é a maioria, tenha seus desejos atendidos. Ainda existirão desejos sendo mortos, pessoas suprimindo o próprio desejo para atenderem o desejo do outro. Assim, a democracia ainda é hegemonia pelo simples fato da democracia retirar o poder de desejar e escolher do indivíduo e transferi-la para a máquina estatal. A autoridade é pra "proteger o indivíduo que está inserido na maioria" ou para "proteger o Estado"? As últimas e as guerras atuais nos dão pistas de quem menos importa para a autoridade que assegura o comprimento das leis.

A desigualdade social é a maior causa da violência? A inquietação da sociedade opressora é advinda da constatação das vitórias do oprimido? Acho complicado. No texto de Bauman, ao citar Mr. Luther King, e o negro americano, nós lemos que: "vários grupos étnicos, raciais e de papel sexual quase vieram a ocupar conjuntamente exclusivos espaços sociais (...) a luta pela igualdade se toma uma luta pelo poder- mas o poder, por conta própria, não reconhece a igualdade” (p.46).  Voltemos ao exemplo do índio: a prática Mbuti do canibalismo, a castração feminina, o estupro quanto prática social, o índio viver em sociedade desigual e observar esses movimentos de ascensão social das classes o torna violento ou o índio é violento? Vamos trazer essa reflexão pras práticas contemporâneas e da sociedade urbana: a cesárea é violenta, a remoção do prepúcio peniano praticada pelos judeus é violenta, ficar em pé por 44 horas por semana no trabalho é uma prática violenta. A historicidade nos mostra que a violência nunca deixou de existir em nenhuma sociedade. Mas porque ela existe? Porque o ser humano é um ser naturalmente narcisístico: ele precisa reconhecer e ser reconhecido. Da mesma forma já é provado que a violência não é somente uma reação à ameaça da segurança, ela é também uma prática ritualística de manutenção da memória, da tradição, por exemplo, a decapitação da Revolução Francesa retoma a coroação. 

A violência é completamente inerente a certos confortos da modernidade! Em Le Sang Des Betês (1949) Franjú alterna imagens da linda Paris culta, tenra, civilizada, profundamente artística e humana com a violência dos abatedouros que circundam a cidade (mais tarde retomaria a mesma imagética em seu documentário sobre o nazismo). As cenas são inconsolavelmente brutais. O sangue, outrora o do cordeiro imolado, oferecido às divindades teriomórficas, é agora resíduo industrial: escorrido e lavado, drenado pelos ralos imundos do abatedouro. Franjú não se entrega à plástica da brutalidade, é sensível, ele a sublima ainda que não poupe nada diante dos nossos olhos, os operários cantam La Mer (canção linda e suave de Charles Trenet) enquanto decapitam, arrancam as entranhas e atiram no chão a bílis e o sangue que restou enquanto assistimos os animais se contorcendo em convulsões post-mortem. 

Esse paralelo traçado por Franjú me faz pensar que a violência está muito além das querelas de poder. Se o mundo é sem fronteiras, se o abatedouro é exposto a olho nu, quem vai definir "o que é aceitavelmente violento?". Ter alguém que o faça não é uma espécie de violência e aniquilação do outro também? O mundo sempre esteve dividido em blocos que se confrontaram até a morte. Até onde a necessidade do "ego coletivo globalizado" deve se expandir e homogeneizar? O humano não teria o direito de manter as suas práticas? Como o homem vai se identificar com práticas tão amplas e variadas da sociedade pós-moderna?

Neste contexto, a "aniquilação do outro" com a separação (ao invés da absorção) surge no abrimento demasiado dessas fronteiras, na identificação não mais possível ou fácil. Surgem as aberrações, a artilharia, os nacionalismos. Não seria o ataque um instinto de sobrevivência primal? Um caminho mais fácil, mais imediato, que casa com a impaciência e o individualismo da sociedade consumista? O humano precisa do seu bem estar emocional: se identificar e manter a memória. Se certificar que vai ser capaz de fazer isso. O homem pós-moderno tem tido dificuldades neste âmbito.... muitas.
Em meio a tantas identidades conflituosas não poderia ser o Escola Sem Partido um sintoma? Um sinal de que práticas outrora permitidas se tornaram execráveis? Ora, na Grécia os tutores iniciavam seus alunos sexualmente. A gama de filmes sobre como o assédio sexual é usado para manipular e destruir os professores é vasta, assim como alguns, colegas de trabalho, em um ato repudiante e hoje criminoso, se aproveitam para seduzir menores. Não parece óbvio, que os pais, vendo o núcleo ideológico de suas práticas ser ameaçado, porque afinal, os pais querem que os alunos se identifiquem com eles e não com os professores, fossem criminalizá-los? Mas a reação dos professores ao projeto de lei me chocou tanto quanto a sintomática criação do projeto em si: "primeiramente Fora Temer!", camisas do Che Guevara para ir dar aula, os slogans, as bandeiras de facebook, a violência com que se expressam sobre o assunto se posicionando veementente em alguma vertente política me diz que os professores querem a qualquer custo que os alunos os sigam; que os estudantes se rebelem contra o seu núcleo familiar (que sim, muitas vezes é de orientação partidária radical de direita). A necessidade de ambos (pais e professores) em demarcar ideologias e escancarar orientações políticas me mostra que a realidade ficcional de “A Onda" (Die Welle 2008) está definitivamente a um estalar de dedos.

Desta forma, concluo que o grande problema do homem do século XIX é ter descoberto que a identidade é uma narração, ou como coloca Bauman "a identidade se torna responsabilidade do sujeito" (p.30). Ao invés de olhar pra si, para o núcleo (ou mapa) familiar, profissional, moral, ele olha para o poder da narrativa. Ele não mais quer somente a hegemonia territorial, econômica, financeira ou as causas humanitárias e cívicas. Ele quer o palco, o homem comum da pós-modernidade quer a hegemonia da sua narrativa. E a agarra com tudo que tem! Os uniformes outrora da polícia e do Estado, se transformaram nas blusas e broches dos militantes que rosnam, mostram os seus dentes, se encontram na fase mais primal de seu instinto animal, prontos para atacar. Agridem sem piedade, seja quem for, seja por que “causa”, desde que seja a sua própria. Ora, historicamente já vimos que “quem pensa estar do lado do bem acaba inexoravelmente se mostrando do ser mau”, vide o exemplo da religião colocado por Bauman. 

O que me salva ao observar isso tudo, inclusive com todo o ódio que tem sido a mim direcionado por parte de ambas as orientações políticas - direita e esquerda, é o lirismo, é a arte, é o amor. Sobretudo a compaixão e a solidariedade, que por vezes me escapam, mas as busco incessantemente.
Essa saída, no entanto, requer um tipo inteiramente diferente de narrativa. Baseia-se na humildade, no saber compartilhado e gentil, que não vê a discordância como um problema porque o respeito aos próximos deve ser soberano desde que não desrespeite a natureza de sobrevivência- esta, por vezes, também ligada às barreiras e distanciamentos e desalinhamentos.
Nesta narrativa o bem estar NÃO é negociado, apenas se SENTE. 
 

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sábado, 13 de agosto de 2016

Ciclos

Que dádiva é o cíclico. Essas relações que se renovam, o cabelo que se alonga. Não tenho medo de mudar. E estou tão satisfeita que minha vida aqui na cidade chará tenha se renovado. O inverno das árvores desnudas é necessário. Aprecio a beleza do despir se das folhas velhas.
Aprecio a beleza da amizade que engatinho com o meu pai, que quem nos tornamos tenha nos permitido algum afeto e alguma convivência, que antes nem sequer imaginava ter um dia.
Tenho sentido a primavera das amizades com outrem chegar singela como as primeiras flores de ipê.
Fiquei com medo de ficar para sempre sem folhas, mas tiveram as que nunca cairam e tiveram umas bem verdinhas, aquele verde-limão que só a folhagem nova tem.
Não superestimo o meu afeto, mas por ele ser legítimo, não o falseio. Sou péssima em manter coisas por conveniência, principalmente pessoas. Se o afeto é só meu, se percebo, eu vou atrás de quem consiga retribuí-lo.
E tenho muitos amigos de quem morro de saudade, separados de mim pelo dia a dia, então definitivamente não vou desperdiçar carinho.
Tem também as folhas que ficaram velhas, caíram, mas voltaram a ser broto e hoje são folhas formosas, daquelas fortes que de longe se vê os veios. Aprecio ter um coração que sabe perdoar e entender.
Mas nem tem assim tanta compaixão, ainda faltam muitos ciclos, talvez até nunca consiga, amar quem só me oferece a sombra de árvores alheias, ou só aproveita a minha, tendo eu um jardim tão bonito comigo.



domingo, 24 de julho de 2016

Gostar de Tarantino ainda é ser mainstream.

É imagino que essa frase deve doer, em especial se você se achava o/a "diferentão (ona)" por citar Pulp Fiction ou usar uma camisa do Darth Vader, mas não consigo mais ficar calada e "deixar pra lá" quando minha opinião é pedida. E quando ela não é pedida, bem, vem aqui pro blog (risos).
Achar que saca muuuuito de cinema porque assistiu Laranja Mecânica ou O Poderoso Chefão ou um filme qualquer do Tarantino que caíu no seu gosto, tem grandes chances de você ser uma pessoa mainstream fingindo ser uma pessoa cinéfila. Antes pensava que esses assuntos de cinema brotavam na minha presença porque as pessoas estavam tentando se "conectar", tentar achar um ponto em comum comigo, que só sei ser essa pessoa estranha que sou, mas estava enganada porque quando botam "essa banca toda", no geral não querem MESMO me ouvir, se deixarem ver ou me enxergarem.
Tenho tido um relacionamento muito melhor com as pessoas mainstream. Todo o meu respeito e o meu coração para aqueles que não se importam por serem maintream e que toleram conviver comigo, e com todo esse universo de coisas bizarras que eu carrego, mas preciso explicar a minha cara de meme virando os olhos quando alguém tenta posar de "cinéfilo" com um repertório tão resumido. Mesmo porque não há nada de vantajoso em não ser "senso-comum" ou nadar contra a corrente. A noção de "pertencimento" é sempre menor quando se é assim. Mas é meio triste você perceber que os valores que pregam os chamados "cinéfilos" do facebook, das cantinas da universidade, no bate-papo casual em um boteco, não passam de "usamos rosa nas quartas-feiras". Quer dizer, existe todo um código de regras, inventadas por eles, tipo "Tarantino é Deus", que jamais poderão serem violadas, a custo de se tornar uma pessoa non-grata.
Mas falar que Tarantino é o melhor diretor do mundo, tendo um repertório de tv, locadora, Netflix ou Telecine, soa mais ou menos como achar que pop é só a Lady Gaga, que metal se resume ao Metallica ou que a literatura inglesa é tão somente Shakespeare. "Shakesperian rag" já dizia o Eliot em 1922, mal sabia ele que essa "pouca vergonha" se estenderia a tantas outras artes. Talvez esse post seja mais uma ode ao agorismo tomando as rédeas das artes.
Eu assisti "Crepúsculo" e assisti "Frozen" também, não há nada demais em curtir uma série da Netflix, se empolgar com a Disney ou achar Die Antwoord maneiro depois de ter ido no show dos caras no Lollapalooza. Mas não vou sair com meu recém adquirido "Pokemon Go" como se fosse a rainha dos otakus, não vou dizer que sou a Siouxsie porque eu uso batom preto, ou ir "trocar ideia sobre música"  em um festival de jazz conhecendo só o John Coltrane... mas sempre fazem isso com o cinema!
Muita gente fica ostentando um saber raso de cinema, e querem o meu aplauso. Digo isso porque se ofendem se digo que existem outras coisas, como se fosse um comentário que "maculasse um repertório de ideias prontas". As pessoas querem colocar o Tarantino em um pedestal do contra-cultura, sem  sequer saber quem é Takashi Miike e quando me questionam porque eu não acho Pulp Fiction o "supra sumo de tudo que há de bom" tampam os ouvidos. Não querem, de fato, saber a resposta, então porque me perguntaram?
Um dia me disseram que eu tenho um tipo de saber que é gentil, um saber que quer compartilhar. E não é mentira! Só vou cansando de mostrar as coisas enquanto os outros fecham os olhos, o interesse acaba onde a "máscara não mais se sustenta". E eu, eu que quero sempre mais, quero sempre o novo, vou ficando cada vez com menos interlocutores que possam me oferecer uma busca de mãos dadas, uma troca, um aprendizado.
Talvez o meu "saber gentil" esteja morrendo com a predominância reivindicada pelo meu ascendente depois dos trinta, risos. Ou talvez só esteja cansada de "muito suco pra pouca laranja".Ou talvez esteja sendo escrota. Fuck off! Fiz um pacto de não "conter mais quem eu sou por outrem" porque nisso não há amor. Quem se permite caminhar comigo, caminha.
Gostando ou não de cinema, sabendo ou não quem é Takashi Miike.
Em tempo: eu GOSTO de Tarantino.







quarta-feira, 20 de julho de 2016

New York City Fuck Off- Matson Jones (traduzida por mim)


I'm sick of electronic fingers (Estou cansada de dedos eletrônicos)
And voices through receivers (e vozes através de caixas postais)
Give me hands (Me dê as mãos)
I'm sick of neurotic picture-makers (estou cansada de fabricantes de imagem neuróticos) 
And heady confrontation (e confrontos inebriantes)
Give me heart (Me dê o seu coração)
Oh
I'm through with electronic letters (Estou de saco cheio de cartas eletrônicas)
And too many vices (e tantos vícios)
Give me help (Me dê uma ajuda)
I'm through with love with picture-makers (Estou de saco cheia do amor e de fabricantes de imagem)
and New York City (e de Nova Iorque)
Fuck off (Vai se ferrar!)
Oh
Run, run, run, run, run that town (Corra corra/controle aquela cidade)
We run, run, run, run, run that town (Nós corremos/controlamos a cidade)
Run, run, run, run, run me down (corra/controle... me atropele)
You run, run, run, run, run me down (Você corre...me atropela)
Run me down (Me atropela)
I'm over cigarettes burned to the filters (Tô cheia de cigarros queimados pelos filtros)
And cold that hurts my fingers (e frio que machuca os meus dedos)
Give me gloves (Me dê luvas)
I'm over lonely picture-makers (Estou de solitários fabricantes de imagem)
Who scatter their hearts (que dispersam/disseminam seus corações)
Give me guts (Me dê colhões)
Oh
I'm through with lonely conversations (Tô de saco cheio de conversas solitárias)
And heartfelt contradictions (e contradições sinceras)
Give me grace (Me dê graça/delicadeza)
I'm through with tragic picture-makers (Tô de saco cheio de fabricantes de imagem)
And optimistic suckers (e otários otimistas)
Fuck off (Vão se ferrar!)
Songwriters:
Matson Jones Concerts



Ser lágrimas na chuva

S̶e̶j̶e̶ ̶m̶e̶n̶a̶s̶ Não, não mesmo. Não tem como ser "menas", não tem como não ser eu. Por muitos anos, ficava calada, pra manter no meu convívio pessoas que achavam que gostavam de mim, por não querer [sic] magoá-las com a minha forma de pensar. Achava que o silêncio era o preço de quem não tem medo de admitir que seus joelhos não se curvam para nenhum cânone, nenhuma "verdade absoluta", nenhuma orientação religiosa ou partidária. Não se curvam porque sou curiosa, e a arte, em especial a literatura, me ensinou quão ínfima e megalomaníaca é uma ideologia. Sororidade, igualdade, fraternidade são p͟a͟l͟a͟v͟r͟a͟s͟ lindas.
Ao abraçar a arte aceitei o ser humano como ele é: nojento, mesquinho, canalha, assassino mas também o criador de coisas belas, de transcendência. Minha vida é uma coisinha insignificante, "todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva". Só posso agir, e só posso agir no AGORA, na minha rotina, no meu dia-a-dia. Também aceitei o fato que não serei perfeita, em dias estarei mais ou menos irritada, mais ou menos paciente, mas "se você não consegue lidar com o meu pior, certamente não merece o meu melhor". 
"Quem se cala está do lado do opressor", "quem é neutro é desprezível". Não, não sou neutra, você se engana se pensa assim. Meu universo de pensamentos é tão cheio de antíteses como o próprio ser humano, sou pacifista até certo ponto, sou generosa até certo ponto. Não mais me engano dizendo ser o que "não sou", se tem uma coisa que nunca foi é "neutra". Em um mundo de quadrados e círculos sempre fui triângulo. E mais do que nunca desejei...num mundo de vida a crédito, pague por uma amostra, ou num mundo de "dívidas históricas", de "conquistas passadas"... nunca desejei TANTO viver O PRESENTE. Estou vivendo o presente, estou "vivendo deliciosamente" ̶a̶c̶e̶i̶t̶e̶i̶ ̶o̶ ̶c̶o̶n̶v̶i̶t̶e̶ ̶d̶o̶ ̶B̶l̶a̶c̶k̶ ̶P̶h̶i̶l̶l̶i̶p̶, e se você não consegue conviver comigo, não posso fazer nada pela sua permanência porque tenho minha NATUREZA.
E minha natureza, que tentei mudar em vão, minha natureza é ser que sou, é ser caótica, é ser agressiva e doce, é não lamber o sapato dos seus gurus/deuses/intelectuais/partidos/posição hierárquica. Isto não necessariamente significa que não sei respeitar autoridades ou que não sou um ser que busca empatia, sabedoria ou espiritualismo...ou que não tenha padrões, ou que não tenha moral. Mas também não significa que você vai compreender os meus. 
É bem vindo em meu convívio quem me RESPEITA. E o que é o respeito para mim? Responder afeto com afeto, não me agredir com palavras ou fisicamente por qualquer querela, é buscar a compreensão de quem eu sou, como sou, o que eu expresso, conseguindo ou não. Porque "você somente entenderia se nunca houvesse desejado entender" . Os meus joelhos só se dobram por amor. E amor é algo que com o tempo e muitos ferimentos comecei a conseguir FAREJAR. 
"Como pode, Mariana, você que demonstra tanto carinho, descartar as pessoas tão facilmente?". Respondo que ninguém sabe se é fácil. É͟ ͟d͟o͟l͟o͟r͟o͟s͟o͟ ser triângulo. E quantas "plásticas mentais" eu fiz na busca de ser menos triângulo, só conseguindo ser um quadrado ou um círculo retorcido e triste, sem um encaixe minimamente aceitável. Mas descobri o Krishnamurti e descobri outros triângulos (sem a pressão de ter que descobrir quem somos ou o que somos ou se é isso o que somos, esta é meramente uma metáfora para conseguir me expressar). 
Mas nunca "descartei ninguém" pelo simples fato de que não uso ninguém, de que acredito no afeto mostrado, no respeito profissional mostrado, e só retribuo. Não tem "um fim". Ora, "o fim" deveria ser o mesmo, benefício mútuo sem data de expirar. N͟ã͟o͟ ͟o͟b͟r͟i͟g͟o͟ ͟n͟i͟n͟g͟u͟é͟m͟ ͟a͟ ͟f͟i͟c͟a͟r͟, mas especialmente não ME obrigo a "aceitar o que não aceito" (agressões, descortesia, arrogância, falsidade) ou mudar minha postura para "não agredir" com coisas que não quero mudar para "caber num molde", por ideologias que não são minhas, por p͟a͟l͟a͟v͟r͟a͟s͟ que meus atos diários ou pensamentos não dão conta. Mas tenho tentado entender as pessoas, em especial, as próximas, se alguém me machucou seriamente a ponto de não poder mais ser próxima, eu digo como e digo o porque. E é muito complicado fazer isso porque sou canceriana. Quem diz que não o faço, mente. Pra si mesmo até.
E não tenho como "parar de tentar me entender" porque não sou algo morto, estático, minhas ideias, minhas ações, são novas a cada nova descoberta, novo encontro, não posso dar "garantias de pra sempre" e não espero "para sempres" dos outros. Talvez este seja o fato que me ajuda a desapegar de gente. 
Estava com medo de ficar sozinha, estava quase me fechando, sendo demasiadamente desconfiada, mas quando olho pra trás, e vejo todos estes "veteranos", comigo há décadas. Vejo o afeto e as bonitas relações que construí com todas as partes envolvidas sendo livres, vejo que tenho tido sucesso em entender e ser entendida e estava deixando a dor das falhas me cegar.
E os fantasmas nas minhas neuroses sussurram "as pessoas pensam que você é falsa, já que o amor que deu é negado quando você não fareja mais o amor no outro. 'Seje menas' exigente, aceite ser agredida, aceite se mudar pautando em outrem, pense no futuro" e eu respondo de volta "Seje menas a p@!$*%$#@! Se é muito pros outros, problema deles porque há quem aguente e os que ficam na minha vida são os que são pra c%$#@! também".



sábado, 16 de julho de 2016

O herói de ontem é o tirano de amanhã.

Há um furor e uma aclamação na transformação de determinados personagens tipicamente atribuídos à homens em personagens femininos, mas para mim há um ponto dissonante: como se personagens femininos não tivessem protagonismos nos seus papéis femininos e tivessem que se "masculinizarem" (de certo modo) para reclamar "um respeito social que nunca lhes foi dado". Ghost Busters (lady version, 2016), a comandante Artemisia (300: a ascenção do império), a Imperatriz Furiosa (Mad Max: a estrada da fúria), por exemplo.

O que estas personagens tem em comum: mostram como as mulheres conseguiram com sucesso "vestir calças" mas ainda negociam o seu papel como uma espécie de "revolta do oprimido". Quando digo "vestir calças", não estou me referindo somente à masculinização do gesto de trocar de vestuário, mas todas as implicações de uma mudança social que ocorreu gradualmente, de forma ativa, ao longo de poucas décadas (se me lembro bem, minha avó materna achava um absurdo mulheres usarem outra roupagem senão vestidos, saias e anáguas). Entendo ficarmos perdidas nos primeiros momentos desta mudança, mas o que tem acontecido com o cinema recentemente, me diz que ainda não sabemos o que fazer com as calças que ganhamos, até quando seremos "Diadorims"(Grande Sertão Veredas) e Joanas D'Arc? Precisaremos nos "mascarar" de homens, generais, bravejar o nosso direito de liberdade sexual  e a descoberta da nossa libido, e emular posturas que eram há décadas dos homens para sermos efetivamente "aceitas" como mulheres. Será que quando nos sentarmos no trono masculino, brandindo nossas espadas, seres que venceram, mesmo sendo fisicamente mais fracos, finalmente nos sentiremos saciadas? Ora, o homem também está a negociar o seu papel na nova configuração social que nos encontramos. Muitos temem esse dia, o dia "do novo opressor". A minha pergunta é: será que queremos ser "um novo homem"?

Pois eu, mulher, não aguardo o momento do "novo homem", aguardo o momento de "novos humanos", mas para isso acontecer, temos que nos despir, homens e mulheres, e cada qual escolher suas vestimentas, com o maior  closet do mundo, onde todas as peças estão à disposição de AMBOS. Sem o desejo que existe na "troca de olhares" entre opressor e oprimido, onde um (o oprimido) parece desejar somente o que o outro (opressor) possui. SÓ porque ele o possui. Não há acordos ou escolhas que partam do "vazio" do "auto-conhecimento". "O que EU quero?", "quero o que o OUTRO tem?".

O mundo todo está em negociação, o iminente choque entre culturas e as respostas catastróficas no indivíduo , na identidade social, era inevitável, mas até quando nós, mulheres, flertaremos com o que o "outro" tem? Quando seremos mulheres, somente, mulheres completas? O que seria a mulher, em uma sociedade idealizada por ela? Se casaria? Ela buscaria o homem para ser seu companheiro ou ela o silenciaria (em um tipo de vingança por todos os anos que fomos silenciadas)? Eu não me sinto orgulhosa deste novo papel da mulher e do homem, o que eu vejo são indivíduos completamente perdidos brigando e reivindicando papéis opostos, e se há opostos, há PODER. Na minha utopia, que precede o caminho espiritual e ideológico que decidi trilhar, já havia a percepção que o antagonismo gera disputas de poder, e que o grande inimigo era este "desejo o que o outro tem, porque nem sei o que eu desejo" porque para mim parece uma escolha feita por pura dor.

Descobri que a única saída é o auto-conhecimento.

A arte me ensinou desde cedo que as mulheres e os homens são construções sociais e biológicas, com uma coisa não excluindo a outra, mas moldando, a todo instante, o INDIVÍDUO. Chega de olharmos para fora, para "os agentes que nos moldam" na ilusão de não "sermos moldados", de "rompimento". A cada nova experiência nos modificamos e a maioria, a grande maioria, quase TODAS, com exceção daquelas de tamanha brutalidade que somos muito fracos para exorcizar,  NOS permitimos sermos moldados, e isto é uma escolha INDIVIDUAL. Não existe, para mim, ou melhor, em mim, o prazer da coletividade. Quando uma parte da minha individualidade (a noção de que nunca seremos plenamente conectados ao outro, nunca conseguiremos nos revelar por completo, nunca acessarmos o que o outro pensa além do que o outro externa) doia demais, sonhei em deixar de existir, em flutuar em uma mente coletiva de todos os seres humanos, em um suicídio de todas as identidades.
A arte se apresentou como a cura da dor da individualidade, porque ela possui uma "base em comum" dentro da individualidade cerceada de cada um. Dor, ódio, angústia, prazer, medo, estes elementos se misturam em um caldeirão de bruxas que é a arte e comunica dentro de mim, o momento de beleza, o torpor, a catarse. Como dizia Cassiel no lindo Tão Longe, Tão Perto "Cada um cria o seu próprio mundo dentro de sua visão e audição. E continua um prisioneiro dentro dele. E de sua cela vê a cela dos outros", a arte para mim é a ponte mais estreita entre a minha cela e a cela do outro.
E o cinema sempre me disse muito. E nele, nos anos 90, vi uma Imperatriz-menina (História Sem Fim), feminina, frágil, porém criadora de toda uma realidade, adorada com toda a sua delicadeza, em suas mãos de opala todo o poder, o da inspiração, lutando contra um antagonista cruel, o Nada (que em inglês é de gênero neutro). Ela não me pareceu oprimida, ela inspirava e era inspirada. Ela não precisou se desfazer de todas as suas características femininas para ser um general/imperatriz/líder espiritual e social. E ela não foi a única personagem feminina que li como poderosa. Em Blade Runner, um dos meus filmes favoritos, também vi a Rachael romper com o sistema vigente (a corporação), tal qual as replicantes Zhora e Pris, de formas diferentes, sem que nenhuma delas deixasse de ser mulher no processo, ou que a Rachael tenha sido menos mulher por dar as mãos ao Deckard, talvez o passo de rompimento que ela precisou dar tenha sido muito maior do que o das outras uma vez que Rachael tinha sua alma muito mais costurada à da Corporação. Vi,  e deliciosamente ouvi os pensamentos graças à narrativa criada por Wim Wender, a Marion de Asas do Desejo (talvez a mulher que mais se aproxime de quem eu me sinto sendo) em sua jornada íntima em busca de ser uma mulher que se sente COMPLETA, e por consequência pronta para traçar uma vida ao lado de um companheiro, seu homem.

E até mesmo, na própria franquia Mad Max, vi uma Tina Turner interpretar uma mulher poderosíssima, a  Entidade Aunty, líder de uma cidade pós-apocaliptica. Aunty é uma personagem interessantíssima, que segundo George Miller, surgiu da ideia de "o tirano de hoje era o herói de ontem", ao encontrar com Max, é a figura ambígua (representação de todo humano?) boa e má, e que, tão ideologicamente apegada ao mundo que construiu, se transforma em uma tirana porque não permite que a mudança natural tome curso. Apesar de ser uma amazona, as características femininas estão lá: a capacidade de inspirar, a de dar vida, a de concretizar um plano secular, a de organizar o mundo concreto, sem que a violência daquele mundo fosse combatida com um par de calças ou um cabelo raspado.
Nunca se fantasiou tanto uma sociedade de líderes, de direitos conquistados por uma ou outra categoria,  de lutas de classes. Nunca se esteve tão distante da descoberta de quem somos ao nos despirmos de gênero, classe, nacionalidade. Esta "querela identitária" que tanto reivindica a liberdade de uma reinvenção nunca foi tão emuladora, chinfrim e nunca precisou tanto de antigos parâmetros para inverter/romper/criar. Parece faltar, e quando penso na Imperatriz Furiosa versus a Entidade Aunty, se torna ainda mais ilustrado em minha mente, uma dificuldade total de "criar o novo" a partir da tela em branco. Parece um novo que é "não-isso", "não-aquilo". Quando digo que gostaria de ver a nova mulher, a VERDADEIRA nova mulher, gostaria muito de ver algo que não fosse "um novo homem" ou "um homem reformado" ou uma Imperatriz Furiosa. Parece que queremos, assim como a Aunty queria, manter a todo custo uma configuração que já deveria ceder lugar para "o futuro", queremos rememorar as lutas há tanto vencidas, queremos o poder que nos foi negado no passado, queremos querer. Mas a Aunty tem um grande mérito em detrimento da Furiosa: ela "embrutece", "tiraniza" sem se tornar "um homem reformado", ela parece segura de quem ela é (como mulher), ainda que tenha falhado em continuar sendo uma heroína e se tornado uma tirana. É quase uma ofensa, anos depois, que a personagem de Charlize Theron seja o que Hollywood tenha para oferecer como ideal de "mulher que rompe com o sistema".

Vivemos a flor da pele nestes tempos, sei que minhas palavras serão tomadas como ignorantes, ofensivas e frustantes por muitos amigos e contatos que me viam sob a alcunha (que nunca aceitei) de feminista. Mas quem não desejar ser meu interlocutor, deixo livre para partir de onde não quer estar. Aos que ficam, sei que também buscam a compreensão de si e do outro, sem que "sua gaiola" se transforme em uma "cúpula do trovão".

Mariana Diamond