domingo, 27 de setembro de 2009

Inanição


Trabalhávamos em uma fábrica imunda e desolada no fim dos tempos depois da grande última guerra. Estiradas e enferrujadas a maquinaria se assemelhava à um gigante colossal de um animal inventado.
O trabalho era simples: consistia em triturar entulhos para transformá-los em matéria prima onde se protejer das condições extremas. Mas nada se é simples quando há um espaço vazio onde deveria haver digestão. Depois de um tempo a impressão que se tem é que o corpo se devora de dentro para fora... a começar pelas próprias paredes do estômago.
A sutileza da situação, levou alguns ao canibalismo... homem contra homem, homem come homem... ao se pensar bem, nota-se que é um absurdo menor que a guerra em si. É um absurdo de sobrevivência.
Eu, no entanto, tenho o paladar sensível para um sabor tão exótico quanto a carne humana. Não me apetece roer os dedinhos de uma mão e chupar-lhes o tutano dos ossos. Mais aprecio a minha inanição. Morte lenta e dolorosa.
Não temos salários, nem nenhum outro tipo de pagamento. Assim sendo, funcionários dos mais diversos caráters são contratados(apesar de não haver um contratante em si). Enquanto a máquina mastiga, me concentro em sua digestão e deixo de reviver por um instante a morte das minhas filhas e o estupro e assassinato de minha jovem e suave esposa.
Um fato nos une, por mais sortidos, por mais motivos obscuros que nos levem à estar ali: todos têm fome.
Um funcionário acidentalmente moeu seu braço. Indiferentes, os observamos gangrenar até a morte...as engrenhagens tingidas de mais vermelho além da natural ferrugem. Um grupo de canibais o observavam morrer enquanto passavam as línguas sobre seus dentes bestiais.
Eles são boas pessoas. E provavelmente trabalharão por mais tempo que eu.

sábado, 5 de setembro de 2009

Areia.

Estou desenvolvendo um câncer. As vezes penso que desde que nasci. As vezes o imagino sendo tomado dráguea à dráguea, mês após mês...até o ponto em que meu útero se encherá de pus e será arrancado de mim e jogado no lixo hospitalar junto das outras carnes podres de outras pessoas. Cânceres e amputações indigentes.
As vezes imagino que será meu pulmão. Preto como uma ameixa ou um membro com gangrena. As vezes me vejo deitada na areia da praia, a radiação do sol queimando a minha pele e fazendo nascer pintinhas que são fundas fundas e mais parecem a raiz de um dente do que uma pequena mancha quando são arrancadas a laser.
Estou desenvolvendo esse câncer castrada, calada... porque estou e não estou sozinha. Na minha fantasia as pessoas dividem essa responsabilidade comigo e percebem que os vinte segundos que economizaram para si ao invés de me ouvir/agradar/atender- não necessariamente nessa ordem, ajudam esse cancêr a fazer mais uma alegre metástase alguns anos a frente.
Quando sinto esse câncer crescendo me vejo na minha brincadeira favorita.Cochilando, semi-consciente, de bruços na quebra da onda. A cabeça levemente virada deitada sobre o braço dobrado para que eu possa respirar o mínimo de ar...cada vez que a onda vem, a areia devora um pouco mais o meu corpo. A água salgada brinca de empurrar meu cabelo para dentro e depois para fora. Afundando. E lamento por não conseguir morrer de verdade, mesmo já estando morta.