terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Apropriação cultural: quando a caricatura é aceita como a realidade.

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Carnaval. Dionísio, Baco. Origem greco-romana, tradição trazida ao Brasil pelos Portugueses.
É um tanto incoerente que em um país com tanta mistura, não se possa fantasiar de índio, usar turbante se você é de determinada COR...será que o "desrespeito" se estende às gueixas, ninjas, guerreiros nórdicos, espartanos, imperadores romanos, Napoleões, mímicos franceses, alemã, Hare Khrisnas, padres e freiras, senhorinhas de idade, gordos, bebês? Porque algumas pessoas gostam de se fantasiar de seres mitológicos, outros gostam de se fantasiar de outras pessoas. O princípio da fantasia é brincar de ser quem você não é.
Se eu escolho uma fantasia com o intuito de OFENDER DELIBERADAMENTE, bem, aí eu sou um caso a parte. Mas temos que pensar que nem todo carnavalesco é assim, que muitas vezes, a escolha pode ser por facilidade (aquela era a única peruca que achei) ou por homenagem (pelo mesmo motivo que crianças gostam de se fantasiar de seus super-heróis). Mas e se o resultado for "caricato"? Bem, existe fantasia que não seja "caricata"?
Será que é ofensivo? Depende da sua força e da sua estima! Depende como você vê a si mesmo. ÓBVIO que uma pessoa metropolitana não sabe "verdadeiramente" como é ser um índio. E, desculpem o veneno, nem esses parecem saber mais como é não ser da cidade, exceto os que vivem em isolamento.
Então chegamos ao ponto crucial desse textão: S͇e͇ ͇a͇ ͇c͇a͇r͇i͇c͇a͇t͇u͇r͇a͇ ͇t͇e͇ ͇o͇f͇e͇n͇d͇e͇,͇ ͇é͇ ͇u͇m͇ ͇s͇i͇n͇t͇o͇m͇a͇ ͇q͇u͇e͇ ͇v͇o͇c͇ê͇ ͇s͇e͇ ͇v͇ê͇ ͇t͇ã͇o͇ ͇p͇r͇ó͇x͇i͇m͇o͇ ͇d͇a͇q͇u͇e͇l͇a͇ ͇f͇i͇g͇u͇r͇a͇ ͇d͇i͇s͇t͇o͇r͇c͇i͇d͇a͇ ͇q͇u͇e͇ ͇c͇h͇e͇g͇a͇ ͇a͇ ͇s͇e͇r͇ ͇a͇s͇s͇u͇s͇t͇a͇d͇o͇r͇!͇!͇!͇ ͇
E ISSO É MUITO RUIM!
É um tiro no pé. É uma forma de ridicularizar a si mesmo. É dar PODER ao caricatural e aceitá-lo como representação do real.
Outro aspecto a se ressaltar, é que não somos uma ÚNICA identidade coesa e objetiva. Ninguém é, de nenhuma cor. Um único aspecto da nossa identidade não pode nos tornar tão FRACOS ao ponto de sermos FERIDOS por palavras. Especialmente se aquela tentativa de me ofender é desproporcional à realidade de quem eu sou ou daquele símbolo que representa PARTE do que eu sou. Temos que lidar com o fato de que não podemos FORÇAR o mundo a nos compreender e aceitar e amar. Infelizmente não é assim. Infelizmente o mundo é cheio de pessoas que nos odeiam, nos desprezam e querem nos humilhar. TODOS nós. Cada mulher, de qualquer cor, é um indivíduo único e ninguém sabe ao certo se ela volta para uma masmorra ou um refúgio, por exemplo. Quem pode ser você, ativista, pra saber isso? Não é tomar o "um pelo todo"? Não é tornar caricato? "O turbante é uma brincadeira de sinhá"? Por que não seguem o exemplo do Dr. King? Esse homem brilhante que os ativistas brasileiros teimam em ignorar? E vamos alimentando esse binarismo sórdido e esse sectarismo, e sim, ao invés de acabar com o racismo, o perpetuamos.
E assim seguimos.
Muitas das vezes, a mesma ativista que "proíbe" o turbante, é, ao mesmo tempo, a que aplaudiu a Madonna na marcha das mulheres, sem saber, sequer que ela ̶r̶o̶u̶b̶o̶u̶ se "inspirou" na Grace Jones, uma artista e ativista maravilhosa, que, eu com muito pesar, lamento por nunca ter conseguido um décimo da projeção que sua copycat branca teve.
Então, antes que você, negra ou negro, enxergue somente a minha "branquitude" e venha desmerecer a minha forma de pensar, dizer que "eu não conheço a sua luta", dar uma de monoglota orgulhoso, usando exemplos do "cotidiano" pra dizer que não posso ter EMPATIA (sentimento humano) pelo movimento negro por não ser negra, se pergunte sobre o quanto você sabe sobre o Martin Luther King Junior, a Grace Jones, que são dois dos meus ícones pessoais.
FOTO: Personagem VAMP (1986) da Grace Jones com o sutiã cone que a Madonna usaria nos anos 90 e causaria maior furor no mundo todo.

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