quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A identidade é responsabilidade do indivíduo, e agora?



“O estado que vestiu homens de uniforme, de modo que estes pudessem ser reconhecidos e instruídos para pisar, e antecipadamente absolvidos da culpa de pisar, foi o estado que se encarou como a fonte, o defensor e a única garantia da vida ordeira: a ordem que protege o  dique do caos.”. (BAUMAN, p.28)

Reler Bauman foi um grande prazer. Livro aqui: Bauman, Z. O mal estar da pós-modernidade
Me fez lembrar um episódio que aconteceu comigo na graduação: em uma das minhas primeiras aulas, um já doutor (que hoje, depois de reencontrá-lo em um seminário, consegui achar simpático) perguntou à turma: "em que sociedade estamos?" e um aluno, todos nós calouros, respondeu "capitalista!". O professor com tom arrogante e irônico disse "Brasileiraaaa! Humpf, capitalista, como se existisse outra sociedade além dessa!" e eu, uma jovem ingênua de 19 anos, levantei a voz e disse "existe sim professor, a indígena!". Ele pôs a mão sobre o queixou, pensou, pensou, e disse "éee você tem razão! Como não pensei nisso.” Todos rimos. Fiquei com uma nota ruim. Rs. 

Lembrei-me desse episódio ao pensar o movimento sugerido por Bauman de "assimilação ou separação". É uma perspectiva desoladora: essa "ampliação" da sociedade ao mundo inteiro, fez com que eu testemunhasse dos 19 aos 32 "os estranhos" da sociedade capitalista do professor P. (porque para mim ela é o Estado em combo com o capitalismo) no caso, os índios, serem engolidos ou se separarem. Para conseguir se separar, as tribos que permaneceram, combinaram isolamento geográfico e hostilidade. E qual é a diferença do índio em total isolamento que mata "o estranho" antes mesmo que o contato seja estabelecido e fascismo, nazismo e outros ismos? Eles não tem interesses econômicos perversos "com os brancos", querem somente as suas ilhas onde possam construir o seu espaço de identificação e lidar com um Outro “menos amplo" da forma que desejarem (provavelmente o matando também). Assim, o problema da fronteira, não é o levante da fronteira propriamente dita- afinal, é um movimento natural e cíclico, até, que os que resistem à morte das suas práticas e identificações queiram partir para a brutalidade: a fronteira concreta, os embargos econômicos, os assassinatos- o problema do mundo "sem fronteiras", "super-globalizado" é a tentativa de hegemonia de todos os tipos, que agora é também uma disputa virtual, se casou com as novas tecnologias. 

Fico tão desapontada quando alguém fala do Capitalismo como a mazela, o Capitalismo nunca esteve sozinho, sempre se associou ao Estado, religioso ou político. A professora Graziela fala de utopia, pois a minha utopia é ver o Capitalismo, sem Estado, o mercado livre, o compartilhamento intelectual, tecnológico e irrestrito, o capitalismo não é ruim, o consumismo é. O embate da segurança versus liberdade sempre demonizou a morte do Estado, mas entregar a liberdade na mão do indivíduo o asseguraria poder de escolha, poder de dizer não. A nossa política e polícia corrupta me diz que a "segurança" e "os direitos trabalhistas" são porcamente assegurados. Pessoas boas desobedecem a leis ruins, a pirataria (é crime, segundo o NOSSO Estado) de filmes e livros, por exemplo, me diz que existem pessoas capazes de burlar o Estado e fazer acontecer, por ímpeto não de caos, mas por solidariedade. A associação da anarquia à morte da solidariedade e da humanidade é a balela de um estado temeroso. Essa discussão aparece em Bauman, mas não é explicado o medo que transformou a anarquia em "caos".

Se formos pensar a democracia, e as correntes de identificação ou o "ego coletivo", ela é democrática pra quem? Como qualquer outro tipo de governo, quanto mediadora, a democracia vai "assegurar" que a parcela X de indivíduos, que é a maioria, tenha seus desejos atendidos. Ainda existirão desejos sendo mortos, pessoas suprimindo o próprio desejo para atenderem o desejo do outro. Assim, a democracia ainda é hegemonia pelo simples fato da democracia retirar o poder de desejar e escolher do indivíduo e transferi-la para a máquina estatal. A autoridade é pra "proteger o indivíduo que está inserido na maioria" ou para "proteger o Estado"? As últimas e as guerras atuais nos dão pistas de quem menos importa para a autoridade que assegura o comprimento das leis.

A desigualdade social é a maior causa da violência? A inquietação da sociedade opressora é advinda da constatação das vitórias do oprimido? Acho complicado. No texto de Bauman, ao citar Mr. Luther King, e o negro americano, nós lemos que: "vários grupos étnicos, raciais e de papel sexual quase vieram a ocupar conjuntamente exclusivos espaços sociais (...) a luta pela igualdade se toma uma luta pelo poder- mas o poder, por conta própria, não reconhece a igualdade” (p.46).  Voltemos ao exemplo do índio: a prática Mbuti do canibalismo, a castração feminina, o estupro quanto prática social, o índio viver em sociedade desigual e observar esses movimentos de ascensão social das classes o torna violento ou o índio é violento? Vamos trazer essa reflexão pras práticas contemporâneas e da sociedade urbana: a cesárea é violenta, a remoção do prepúcio peniano praticada pelos judeus é violenta, ficar em pé por 44 horas por semana no trabalho é uma prática violenta. A historicidade nos mostra que a violência nunca deixou de existir em nenhuma sociedade. Mas porque ela existe? Porque o ser humano é um ser naturalmente narcisístico: ele precisa reconhecer e ser reconhecido. Da mesma forma já é provado que a violência não é somente uma reação à ameaça da segurança, ela é também uma prática ritualística de manutenção da memória, da tradição, por exemplo, a decapitação da Revolução Francesa retoma a coroação. 

A violência é completamente inerente a certos confortos da modernidade! Em Le Sang Des Betês (1949) Franjú alterna imagens da linda Paris culta, tenra, civilizada, profundamente artística e humana com a violência dos abatedouros que circundam a cidade (mais tarde retomaria a mesma imagética em seu documentário sobre o nazismo). As cenas são inconsolavelmente brutais. O sangue, outrora o do cordeiro imolado, oferecido às divindades teriomórficas, é agora resíduo industrial: escorrido e lavado, drenado pelos ralos imundos do abatedouro. Franjú não se entrega à plástica da brutalidade, é sensível, ele a sublima ainda que não poupe nada diante dos nossos olhos, os operários cantam La Mer (canção linda e suave de Charles Trenet) enquanto decapitam, arrancam as entranhas e atiram no chão a bílis e o sangue que restou enquanto assistimos os animais se contorcendo em convulsões post-mortem. 

Esse paralelo traçado por Franjú me faz pensar que a violência está muito além das querelas de poder. Se o mundo é sem fronteiras, se o abatedouro é exposto a olho nu, quem vai definir "o que é aceitavelmente violento?". Ter alguém que o faça não é uma espécie de violência e aniquilação do outro também? O mundo sempre esteve dividido em blocos que se confrontaram até a morte. Até onde a necessidade do "ego coletivo globalizado" deve se expandir e homogeneizar? O humano não teria o direito de manter as suas práticas? Como o homem vai se identificar com práticas tão amplas e variadas da sociedade pós-moderna?

Neste contexto, a "aniquilação do outro" com a separação (ao invés da absorção) surge no abrimento demasiado dessas fronteiras, na identificação não mais possível ou fácil. Surgem as aberrações, a artilharia, os nacionalismos. Não seria o ataque um instinto de sobrevivência primal? Um caminho mais fácil, mais imediato, que casa com a impaciência e o individualismo da sociedade consumista? O humano precisa do seu bem estar emocional: se identificar e manter a memória. Se certificar que vai ser capaz de fazer isso. O homem pós-moderno tem tido dificuldades neste âmbito.... muitas.
Em meio a tantas identidades conflituosas não poderia ser o Escola Sem Partido um sintoma? Um sinal de que práticas outrora permitidas se tornaram execráveis? Ora, na Grécia os tutores iniciavam seus alunos sexualmente. A gama de filmes sobre como o assédio sexual é usado para manipular e destruir os professores é vasta, assim como alguns, colegas de trabalho, em um ato repudiante e hoje criminoso, se aproveitam para seduzir menores. Não parece óbvio, que os pais, vendo o núcleo ideológico de suas práticas ser ameaçado, porque afinal, os pais querem que os alunos se identifiquem com eles e não com os professores, fossem criminalizá-los? Mas a reação dos professores ao projeto de lei me chocou tanto quanto a sintomática criação do projeto em si: "primeiramente Fora Temer!", camisas do Che Guevara para ir dar aula, os slogans, as bandeiras de facebook, a violência com que se expressam sobre o assunto se posicionando veementente em alguma vertente política me diz que os professores querem a qualquer custo que os alunos os sigam; que os estudantes se rebelem contra o seu núcleo familiar (que sim, muitas vezes é de orientação partidária radical de direita). A necessidade de ambos (pais e professores) em demarcar ideologias e escancarar orientações políticas me mostra que a realidade ficcional de “A Onda" (Die Welle 2008) está definitivamente a um estalar de dedos.

Desta forma, concluo que o grande problema do homem do século XIX é ter descoberto que a identidade é uma narração, ou como coloca Bauman "a identidade se torna responsabilidade do sujeito" (p.30). Ao invés de olhar pra si, para o núcleo (ou mapa) familiar, profissional, moral, ele olha para o poder da narrativa. Ele não mais quer somente a hegemonia territorial, econômica, financeira ou as causas humanitárias e cívicas. Ele quer o palco, o homem comum da pós-modernidade quer a hegemonia da sua narrativa. E a agarra com tudo que tem! Os uniformes outrora da polícia e do Estado, se transformaram nas blusas e broches dos militantes que rosnam, mostram os seus dentes, se encontram na fase mais primal de seu instinto animal, prontos para atacar. Agridem sem piedade, seja quem for, seja por que “causa”, desde que seja a sua própria. Ora, historicamente já vimos que “quem pensa estar do lado do bem acaba inexoravelmente se mostrando do ser mau”, vide o exemplo da religião colocado por Bauman. 

O que me salva ao observar isso tudo, inclusive com todo o ódio que tem sido a mim direcionado por parte de ambas as orientações políticas - direita e esquerda, é o lirismo, é a arte, é o amor. Sobretudo a compaixão e a solidariedade, que por vezes me escapam, mas as busco incessantemente.
Essa saída, no entanto, requer um tipo inteiramente diferente de narrativa. Baseia-se na humildade, no saber compartilhado e gentil, que não vê a discordância como um problema porque o respeito aos próximos deve ser soberano desde que não desrespeite a natureza de sobrevivência- esta, por vezes, também ligada às barreiras e distanciamentos e desalinhamentos.
Nesta narrativa o bem estar NÃO é negociado, apenas se SENTE. 
 

https://scontent.cdninstagram.com/t51.2885-15/s480x480/e35/13298122_1712905415642222_1593900825_n.jpg?ig_cache_key=MTI1NzY1MDM0NjE0NDIxODQzMQ%3D%3D.2.l

Nenhum comentário:

Postar um comentário